segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

O Livro de Rute - Estrutura, Síntese do Conteúdo e Composição



Terminado o livro dos Juízes, e antes de que se inicie nos livros de Samuel as origens da monarquia em Israel, a Bíblia Sagrada inclui um livro com uma história entranhável, a de Rute. Este livro não forma parte da “história deuteronomista”, mas aparece aqui inserido nos mais antigos códices gregos e na Vulgata latina. No entanto, na Biblia hebreia, se inclui entre os Escritos. É um dos cinco megil-lot, isto é, dos cinco rolos de pergaminho que se leem em algumas festas jusdaicas. Concretamente, o livro de Rute se lê nas sinagogas no dia de Pentecostes, festa em que os judeus dão graças a Deus em razão da colheita.

Estrutura e Síntese do Conteúdo

O livro de Rute narra a história de como uma mulher estrangeira, de cuja descendência nasceria o rei Davi, se incorporou ao povo de Israel. Seu conteúdo pode ser estruturado em duas partes:

I – Rute se acolhe à proteção do Senhor (1,1-2, 17) - Esta parte está centrada na decisão de Rute de deixar seu povo e a família de seus pais para residir em Belém da Judá. A narração começa contando que um judeu de nome Elimélec saiu da terra de Judá em tempos de uma grande escassez de alimentos e se dirigiu a Moab. Ali, após a sua morte, seus filhos contraíram matrimônio com duas jovens oabitas, Orpá e Rute; mas eles faleceram pouco depois. Quando Noemi, sua viúva, decidiu regressar a Belém, uma de suas noras, Rute, se ofereceu para acompanhá-la com umas palavras que são um testemunho inesquecível de fidelidade: “Para onde fores, eu irei; o teu povo é o meu povo, o teu Deus é o meu Deus” (Rt 1,16). Ante a firmeza de sua declaração, Noemi optou por aceitá-la em sua companhia, como se fosse sua própria filha. Quando ambas chegaram a Belém, Rute saiu a espigar atrás dos segadores, a fim de conseguir alimento para ela e a sua sogra, e Deus a abençoou por ter confiado nEle.

II- Rute se incorpora à casa de Israel (2, 18-4, 22) - A segunda parte gira em torno à “redenção” (geulá), um costume tradicional em Israel que obrigava a proteger aos familiares desamparados por qualquer causa. Enquanto Rute colhia espigas no campo conheceu a Booz, parente rico de seu falecido sogro Elimélec. Quando, regressando a casa, encontra Noemi, Rute busca a proteção de Booz, e este, admirado pelas virtudes que percebe na moabita, se apaixona por ela e decide assumir essa responsabilidade. Não obstante, como essa tarefa correspondia em primeiro lugar a outro parente, resolve primeiro as questões legais pertinentes. Finalmente, a toma por esposa e desde matrimônio nasce Obed, que seria o pai de Jessé e avô de Davi.

Composição

O livro de Rute não forma parte da “história deuteronomista”, pois tem características singulares. Composto provavelmente quando Judá era uma província do império persa (séculos VI-V a.C.), o livro deixa uma porta aberta à dimensão universal da salvação divina, precisamente quando se insistia aos israelitas em que não contraíssem matrimônio com mulheres estrangeiras para salvaguardar assim a identidade do povo. O livro de Rute mostra que também fora de Israel havia mulheres boas e fiéis a Deus, e que Deus contava com elas para fazer grandes coisas na história da salvação: da descendência de uma mulher moabita, Rute, haveria de nascer o rei Davi. 

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Os 2 livros dos Reis - Composição e Ensinamentos



Composição

A obra foi redigida na época do desterro ao menos como uma primeira redação da “história deuteronomista”, e era destinada aos judeus que viveram o desastre da invasão babilônica. Tem por finalidade explicar como puderam suceder aquelas coisas e animar à fidelidade ao Deus de Israel, o único verdadeiro.  O redator de 1 e 2 Reis se serviu de materiais prévios nos quais se apoia e aos quais respeita ao introduzi-los em sua obra.

Ensinamentos

Em seu conjunto 1 e 2 dos Reis mostram, como o livro do Deuteronômio, que o destino do homem depende de sua fidelidade a Deus. A experiência histórica de Israel havia sido que, depois de haver tido a posse da terra como dom de Deus, chegou a perdê-la ao ser invadido e levado ao desterro pelos povos estrangeiros. Este fato avivou a consciência de que o homem está chamado ao fracasso quando abandona o verdadeiro Deus e a sua Lei, submetendo-se ao serviço dos ídolos.

Em 1 e 2 Reis encontramos descrita a relação dos homens com Deus e de Deus com os homens, que se manifesta na história de Israel ao longo de uns quatrocentos anos. 1 e 2 Reis são, neste sentido, os livros do Antigo Testamento que, talvez com mais realismo do que nenhum outro - “manifestam a todos o conhecimento de Deus e do homem, e o modo com que Deus justo e misericordioso trata os homens (...) antes do tempo da salvação estabelecida por Cristo (Conc. Vaticano II, Dei Verbum, n. 15).   

Com efeito, 1 e 2 Reis põem ante os olhos o conhecimento de Deus que Israel adquiriu  ao longo da história, e como chegou a ele. Certamente, Deus se havia revelado aos patriarcas como amigo, acompanhante e protetor em suas peregrinações, e a Moisés e a Josué como o Deus que tirou o seu povo do Egito, estabeleceu com ele uma aliança e lhe deu uma lei e uma terra. Deus se havia revelado aos Juízes como salvador nas batalhas e administrador da justiça ante o povo, chegando a lhe conceder um rei que exercesse estas funções e fosse segundo o seu coração. Agora, me 1 e 2 Reis, Deus se revela misericordioso e fiel.  

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Os 2 Livros dos Reis - Estrutura e Síntese do Conteúdo



Os 2 Livros dos Reis constituem uma unidade: a quarta parte do conjunto integrado por Josué, Juízes, Samuel e Reis, que na Bíblia hebreia recebe o nome de “profetas anteriores”. A divisão do conteúdo de Reis em 2 Livros se encontra pela primeira vez nos códices da tradução grega da Bíblia, chamada “dos Setenta” , onde levam o título: “Terceiro e Quarto livro dos Reinos”, pois o primeiro e o segundo correspondiam a 1 e 2 Samuel. Foi São Jerônimo quem, seguindo a tradição hebreia, os chamou “Livro dos Reis”.

Estrutura e Síntese do Conteúdo

O primeiro livro dos Reis começa com uma ampla narração da figura e das obras de Salomão, sucessor de Davi. Depois, vai expondo a história dos Reinos que se formaram com a morte de Salomão: Israel no Norte e Judá no Sul. Apresenta aos reis de ambos os reinos de maneira sincrônica, relacionando as datas nas quais uns e outros começaram a reinar. No segundo livro dos Reis continua a história dos dois reinos, a partir dos tempos do profeta Eliseu, até chegar à desaparição do Reino do Norte e, depois, a deportação à Babilônia do rei de Judá e da povoação mais importante de Jerusalém.  O conteúdo dos Livros dos Reis se pode dividir da seguinte forma:

I-               O Rei Salomão sucessor de Davi (1 R 1, 1-11, 43). Primeiro se apresenta como foi a sucessão de Davi; segue se a narração da magnificência do reinado de Salomão, que se conclui com a exposição dos pontos obscuros de seu reinado e com a sua morte. O rasgo mais notável de Salomão é a sabedoria que Deus lhe outorga. e que se manifesta nas construções que realiza, sobretudo na edificação e dedicação do Templo.

II-     Reis de Israel e de Judá (1 R 12,1- 2R 17,40). Vão-se apresentando de forma sincrônica os reis de Israel e de Judá até os tempos do profeta Elias. Começa com a divisão produzida entre as tribos do norte e as do sul a partir da sucessão de Salomão: as tribos do sul se mantiveram fiéis a Roboão, filho de Salomão, enquanto as do norte nomearam Joroboão como rei. Em Judá, os reis acedem ao trono por via hereditária, mantendo-se assim a estirpe de Davi.

III-          Reis de Judá após o exílio da Babilônia 2 R 18, 1-25,30). Esta última parte dos livros dos Reis conta a história do reino de Judá após a queda do reino do Norte, até a tomada e saqueio de Jerusalém por Nabucodonosor. Em Judá ficou um governador e, na Babilônia, o rei Joaquim, ainda que sob cativeiro, obteve um trato de favor e de reconhecimento como rei por parte de Nabucodonosor. Acaba assim a história dos reis com um toque de esperança porque continua, mesmo no desterro, a estirpe de Davi. 

sábado, 2 de novembro de 2013

Os 2 livros de Samuel - Estrutura e Síntese de Conteúdo



Os livros de Samuel estão colocados na Bíblia hebreia em seguida de Josué e Juízes e antes dos 2 livros dos Reis, formando todos eles um bloco de “profetas anteriores” para distingui-los dos “profetas posteriores” (Isaías, Jeremias, Ezequiel e os 12 profetas menores). A versão  grega dos Setenta, seguida pela Vulgata e por outras versões antigas, intercala o livro de Rute entre Juízes e Samuel, e reúne os 2 livros de Samuel e Reis sob a denominação 1 e 2 de Reis (= 1 e 2 de Samuel) e 3 e 4 dos Reis (= 1e 2 de Reis), que têm características que os distinguem dos subsequentes.

Os Livros 1 e 2 de Samuel apresentam a monarquia sucessória a partir de Davi como sistema de governo querido por Deus para seu povo. Mostram como modelo a este rei que, apesar de suas limitações pessoais e dos seus delitos, foi sempre favorecido pelo Senhor e se manteve fiel a seus desígnios, humilhando-se e pedindo perdão de seus pecados. A história contida nos livros de Samuel abarca uma etapa transcendental da na vida de Israel, que se estende desde o nascimento de Samuel, o último dos juízes. Até o final da vida de Davi. Trata-se do período em que as doze tribos passaram de um regime de liderança ocasional a constituir um estado organizado com uma monarquia hereditária e única segundo o modelo dos reinos vizinhos.

Ainda que estes Livros contenham elementos poéticos colocados estrategicamente ao princípio, como o cântico de Ana (1 Sm 2, 1-10) e, ao final, o salmo de Davi (2 Sm 22,2-51), constituem um relato continuado, no qual se evidencia como Deus atua entre os seus, como elege a seus representantes – a Samuel primeiro e depois aos reis – como rechaça a Saul por sua infidelidade e favorece a Davi, seu servo fiel, e como mantém sua aliança apesar dos pecados dos homens.

Estrutura e Síntese do Conteúdo

Os protagonistas da trama narrativa são Samuel, Saul e Davi. O conteúdo de 1 e 2 de Samuel se pode dividir de acordo com os personagens que vão sendo apresentados:

I-               História de Samuel. A Arca (1 Sm 1,1-7, 17). Há duas apresentações de Samuel, uma como profeta (1 Sm 1,1-4.1) e outra com características análogas às dos juízes (1 Sm 7,2-17). Separando as duas seções há o relato de episódios em torno à Arca da Aliança, e a primeira vitória sobre os filisteus (1 Sm 4, 1-7, 1).. 

II-             Samuel e Saul (1 Sm 8,1-15,35). Narram-se alguns acontecimentos. Em um relato, diz-se que Samuel ungiu espontaneamente a Saul como rei, após um encontro fortuito quando este buscava asnas de seu pai que haviam se perdido (1 Sm 9,1-10,16). Em outro, Samuel foi ungido a pedido do povo (1 Sm 8,1-23; 10, 17-27; 12, 1-25). Saul conta ao princípio com a ajuda de Deus e do povo, mas ao final é rechaçado. Como razões para esse rechaço se aduzem duas razões: não haver esperado Samuel para realiza um sacrifício (1 Sm 13, 7-15) e haver poupado a vida do rei dos amalecitas, reservando-se parte do botim de guerra.

III-        Saul e Davi (1 Sm 16, 1-2 Sm 1, 27).Há também duplicações, como na seção anterior. Primeiro se diz que os personagens se conhecerem quando Davi entrou como músico a serviço do rei (1 Sm 16, 14-23) e mais adiante que apresentaram Davi ao rei depois de sua vitória sobre Golias (1 Sm 17, 55-58). Saul atenta duas vezes contra a vida de Davi (1 Sm 18, 10-11; 19, 10). Duas vezes se constata a popularidade de Davi (1 Sm 18,12-16.28-30) e em duas ocasiões se promete a ele casar-se com a filha de Saul (1 Sm 18, 17-19.21-27). Davi é traído duas vezes (1 Sm 23,1-13.19-28), e duas vezes perdoa a vida de Saul (1 Sm 24, 1-23; 26, 1-25). Por último, em duas oportunidades se refugia na casa de um príncipe filisteu de Gat (1 Sm 21,11-16; 27, 2-12).

IV-          Davi, Rei (2 Sm 2,1-8, 18). Nesta seção percebe-se uma mudança de estilo em relação às anteriores. Aqui não há repetições.Narram-se  de forma mais linear a consagração de Davi como rei de Judá em Hebron, e as diversas lutas e intrigas que se produzem até que é aceito também como rei por todas as tribos de Israel (2 Sm 5, 1-5).

V-              Sucessão de Davi (2 Sm 9, 1-20, 26). Nesta seção também não há repetições. No marco da guerra contra os amalecitas, narra-se  o adultério e o crime de Davi, como antecedente do nascimento do futuro sucessor, Salomão. Mas antes de que esse suba ao trono, produzem-se dentro da família de Davi muitas e dolorosas intrigas:  Amnón viola a sua irmã Tamar e é assassinado por Absalón; posteriormente este se revolta contra seu pai, que foge de Jerusalém, e termina assassinado por Joab (2 Sm 15,1-18, 32). Davi regressa de novo a Jerusalém e consegue estabelecer-se definitivamente, após derrotar alguns insidiosos (2 Sm 19,1-20, 26).

VI-       Epílogo (2 Sm 21, 1-24,25). O livro termina com um apêndice que recolhe um relato de fome e de peste que se apresenta para justificar a morte dos descendentes de Saul. Segue uma nova menção das vitórias contra os filisteus (2 Sm 21,1-22) e culmina com um salmo de Davi (2 Sm 22,1-51). O último capítulo relata o pecado do censo como circunstância para sublinhar  que Davi, arrependido, decidiu edificar um altar na era de Arauná, o mesmo local onde seria construído o futuro Templo (2 Sm 24, 1-25). 

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Livro dos Juízes - Ensinamentos e à Luz do Novo Testamento



Ensinamentos

A recompilação das tradições locais no livro dos Juízes ilustra de modo exemplar a relação de Deus com seu povo. Desde o seu assentamento na terra prometida Deus se interessou por Israel e atuou em seu favor quantas vezes foi necessário. Assim, quando o povo eleito se via oprimido por alguma circunstância angustiosa, Deus intervinha para libertá-lo.

Os relatos sobre os juízes manifestam uma grande rudeza que é testemunho da situação na qual viviam as tribos de Israel nos seus primeiros tempos. O autor sagrado utiliza tradições para ilustrar a mensagem que deseja transmitir conservando os rasgos arcaicos das épocas mais antigas. Para entender adequadamente os relatos sobre os juízes convém ter em conta algumas advertências.

A primeira é que “Deus se revelou progressivamente” (CEC 199, 204, 287, 486, 758, 992-96). Isto é: a Revelação divina se foi realizando de modo gradual, tanto nos conteúdos doutrinais como na sensibilidade ética. Por isso, não se podem tomar agora como modelos uns personagens que atuam com umas convicções ou uns critérios ético superados quando a Revelação alcançou sua plenitude em Jesus Cristo. Mesmo na época em que o livro foi redigido algumas práticas já estavam superadas. Também é necessário ler as narrativas no contexto de toda a obra. Lidas em seu conjunto, as façanhas dos juízes não foram incluídas no livro sagrado como modelos de comportamento nem de atitude religiosa. Esses homens viveram em um tempo de costumes e de valores muito elementares, que manifestam a rudeza daquela época. Ainda que a Sagrada Escritura fale claramente desses acontecimentos, não pretende apresentá-los como exemplares.

As tradições acerca do das gestas dos juízes se incluíram no livro sagrado como testemunho de que Deus não se esqueceu de seu povo quando este se encontrava angustiado e suscitou uns homens capazes de livrá-los de seus opressores.

O autor sagrado, ao apresentar a cada um dos juízes maiores, desenvolve os elementos da tradição agrupando-os em torno a um esquema: pecado, castigo, salvação. Todo o livro é um chamado a viver a fidelidade à Aliança. O pecado é uma ruptura a esta fidelidade. No entanto, frente à fragilidade do povo, se ressalta a paciência e a fidelidade de Deus.

A intervenção salvadora de Deus começa pela eleição gratuita do homem a quem corresponderá reestabelecer a situação. Assim o expressa, por exemplo, o diálogo de Gedeão com o Anjo do Senhor: “Gedeão replicou: Por favor, meu senhor, como poderei eu libertar Israel? Minha família é a mais humilde de Manassés, e na casa de meu pai eu sou o último. O Senhor respondeu: “Eu estarei contigo, e tu derrotarás os madianitas como se fossem um só homem” (Jos 6,15-16).

O livro dos Juízes é também um canto de libertação. Quando Deus contempla as dificuldades de seu povo ante o perigo e escuta seu pedido de ajuda, vai libertá-los de seus inimigos temporais,  Estas experiências de liberação de libertação são os primeiros marcos, depois da libertação do Egito, da ação divina que culminará na libertação definitiva. Essas recordações servirão para alimentar a esperanças nos momentos difíceis do Desterro (sec. VI a. C), e são presságio de realidades mais profundas que se manifestarão posteriormente. 

O Livro dos Juízes à Luz do Novo Testamento

O ensinamento teológico do livro dos Juízes encontra sua plenitude à luz do Novo Testamento. A Encarnação do Filho de Deus e sua missão salvífica são a manifestação patente de que Deus não se despreocupa de seu povo nem da humanidade como um todo.

A iniciativa de Deus ao escolher uns homens e a gratuidade dessa chamada, que já se descobrem no livro dos Juízes, aparecerão mais profundamente no Novo Testamento. Assim o ensina por exemplo São Paulo:”De fato, irmãos, reparai em vós mesmos: não há entre vós muitos sábios de sabedoria humana, nem muitos poderosos, nem de família nobre. Mas o que para o mundo é loucura, Deus os escolheu para envergonhar os sábios, e o que para o mundo é fraqueza, Deus escolheu para envergonhar o que é forte”. Deste modo, ao constatar a imensa desproporção entre as qualidades dos eleitos e os frutos que produz o seu labor, percebe-se com claridade que a eficácia vem de Deus.

Alguns relatos do Livro dos Juízes foram contemplados pelos Padres da Igreja à luz do mistério de Cristo. Por exemplo, a figura de Sansão foi comparada com Jesus Cristo, e seu triunfo sobre os filisteus é para os cristãos um símbolo da redenção divina e da vitória sobre a morte. Na vida da Igreja, a experiência da libertação que transmite o livro dos Juízes é compreendida como antecipação da ação de Jesus Cristo, pleno libertador do homem, não só das condições materiais adversas e injustas, mas autor da mais profunda libertação, a do pecado e da morte.

(cfr. Biblia Sagrada anotada pela Faculdade de Teologia da Universidade de Navarra). 

sexta-feira, 9 de agosto de 2013

O Livro dos Juízes - Estrutura, síntese e composição



No Livro dos Juízes se narra a chegada do povo de Israel à terra de Canaã, as dificuldades com as quais se foram encontrando em seu assentamento em cada zona e a proteção divina que puderam experimentar nas situações difíceis que se apresentaram às diversas tribos. Nesses momentos mais adversos Deus foi suscitando uns líderes carismáticos, os “juízes”, que tinham a missão de salvar o povo.

Estrutura e síntese do livro

Depois de um prólogo no qual se condensam os ensinamentos do livro, sucedem as narrações das façanhas realizadas por diversos juízes. Essas narrações são cada vez mais extensas e, conforme o texto avança, outros relatos vão sendo anexados.

Prólogo (1,1-3,6) Consta de duas partes. Primeiro se fala da chegada das tribos israelitas à terra de Canaã e de seu paulatino assentamento em seus territórios (Jz 1,1-36). Depois se expressa o ensinamento teológico fundamental do livro: Israel permanecerá nessa terra enquanto seja fiel ao Senhor, mas na medida em que se afaste de Deus deixará de contar com o favor divino. O Senhor deu reiteradas mostras de sua fidelidade suscitando juízes que salvem o povo das situações perigosas, mas Israel reincidiu uma e outra vez na infidelidade.

Os relatos de juízes compreendem seis histórias em torno a outros tantos personagens: 1) Otniel, da família de Caleb (3,7-11); Ehud, da tribo de Beijamin(3,12-30); Débora, da tribo de Efraim (4,1-5,32); Gedeon-Yerubaal, da tribo de Manassés (6,1-10,5); Jefté, de Galaad (10,6-12,15) e Sansão, da tribo de Dan (13,1-21,25).

Composição

A redação definitiva do livro dos Juízes foi realizada dentro do processo de composição da “história deuteronomista” da qual forma uma parte importante.

Os relatos exemplares incluídos no livro tomam seu argumento, possivelmente, de dados tradicionais de diversas procedências. No total se fala de doze juízes – um para cada tribo – mas só se narra com certa extensão as façanhas de seis deles. Cada tribo haveria ido recordando os feitos dos heróis pretéritos, transmitindo-os de geração em geração. Em alguns casos, as histórias logo se revestiram de forma literária, como o “Canto de Débora”. Outras memórias foram transcritas posteriormente.

Na época do desterro esses relatos foram agrupados nesse livro para ilustrar o ensinamento teológico fundamental próprio da “história deuteronomista”: a inquebrantável de Deus em contraste com as reiteradas infidelidades de Israel. No entanto, em sua redação se respeitaram os rasgos mais genuínos de cada relato, ainda que em alguns casos se apresentem chocantes para o ensinamento geral que se quer transmitir. Por isso se narram, sem reprovação explícita, fatos ou costumes discordantes, como por exemplo a possibilidade de dar culto a Deus em diversos santuários, e não só em Jerusalém, ou no oferecimento de um sacrifício humano por parte de Jefté.

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Livro de Josué - Ensinamentos e À luz do Novo Testamento



Ensinamentos

Deus é fiel e sempre cumpre suas promessas. Assim se faz constar de modo explícito: “De todas as promessas favoráveis que o Senhor havia proferido para a casa de Israel nenhuma falhou, todas se cumpriram” (Jo 21,45).

A tradição bíblica apresentar com singular realce os protagonistas dos grandes momentos da história, eleitos por Deus para realizar seu grande projeto de salvação. Josué é um desses protagonistas, instrumento de Deus para introduzir o povo na terra prometida. Assim como durante a peregrinação pelo deserto Moisés havia sido o mediador entre Deus e o povo,  agora Josué desempenha essa tarefa. Porém, o protagonista principal é o povo. Na narração da passagem do Jordão, e das primeiras conquistas da terra prometida, o povo de Deus é apresentado como uma nação santa, em disposição litúrgica, presidida pela Arca da Aliança, símbolo da presença de Deus entre os seus. Deste modo, fica claro que a conquista da terra é um dom de Deus concedido a seu povo por meio de seu servo Josué, e não por seus dotes guerreiros nem pelo potencial ofensivo de suas armas. O próprio Josué, após concluída a conquista da terra prometida, será o mediador da renovação da Aliança em uma cerimônia realizada em Siquém, na qual o povo se compromete a ser fiel ao Senhor e a cumprir os seus preceitos.

Convém também ressaltar a força com que o texto sagrado insiste uma e outra vez na unidade do povo. Ainda que algumas tribos hajam recebido sua herança antes de passar ao Jordão, para entrar na terra prometida, não abandonaram seus irmãos na tomada de posse de Canaã (Jos 1, 10-16; 22,1-8). Na narração se sublinha que todo o povo unido, sob a liderança de Josué, realizou a conquista. Por sua vez, o povo unido deve reconhecer que há um só Deus, o Senhor, que lhes prestou auxílio, o único ao qual devem servir.

À luz do Novo Testamento

A figura de Josué, instrumento de Deus para introduzir o povo na terra prometida, representa uma verdadeira antecipação profética de Jesus Cristo. Seu próprio nome, Josué, é idêntico ao de Jesus. Ambos significam “o Senhor salva” (em hebreu, Yehosú’a). Josué proporcionou a seu povo a salvação ao introduzi-lo na terra, mas também salvou a pessoas que não formavam parte dele, como Rajab e sua família (Jos 6, 22-25), que haviam secundado os planos de Deus e manifestado assim sua fé com obras. Também Jesus, que veio trazer a salvação a Israel, a faz extensiva a todos os homens e mulheres de todas as raças da terra que secundam os planos de Deus.

O paralelo entre Josué e Jesus foi desenvolvido por alguns Padres da Igreja. São Justino explicou que assim como Josué sucedeu a Moisés e introduziu ao povo na terra prometida, Jesus substituiu a Moisés, e seu Evangelho à Lei mosaica, e conduziu ao novo povo de Deus à salvação. Origenes estabeleceu um paralelo espiritual entre Josué, que conduziu a Israel à vitória abatendo reinos, cidades e inimigos, e Cristo, que guia a alma e lhe proporciona a vitória sobre os vícios e paixões.

(cfr. Biblia Sagrada anotada pela Faculdade de Teologia da Universidade de Navarra).