segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

O Livro de Rute - Estrutura, Síntese do Conteúdo e Composição



Terminado o livro dos Juízes, e antes de que se inicie nos livros de Samuel as origens da monarquia em Israel, a Bíblia Sagrada inclui um livro com uma história entranhável, a de Rute. Este livro não forma parte da “história deuteronomista”, mas aparece aqui inserido nos mais antigos códices gregos e na Vulgata latina. No entanto, na Biblia hebreia, se inclui entre os Escritos. É um dos cinco megil-lot, isto é, dos cinco rolos de pergaminho que se leem em algumas festas jusdaicas. Concretamente, o livro de Rute se lê nas sinagogas no dia de Pentecostes, festa em que os judeus dão graças a Deus em razão da colheita.

Estrutura e Síntese do Conteúdo

O livro de Rute narra a história de como uma mulher estrangeira, de cuja descendência nasceria o rei Davi, se incorporou ao povo de Israel. Seu conteúdo pode ser estruturado em duas partes:

I – Rute se acolhe à proteção do Senhor (1,1-2, 17) - Esta parte está centrada na decisão de Rute de deixar seu povo e a família de seus pais para residir em Belém da Judá. A narração começa contando que um judeu de nome Elimélec saiu da terra de Judá em tempos de uma grande escassez de alimentos e se dirigiu a Moab. Ali, após a sua morte, seus filhos contraíram matrimônio com duas jovens oabitas, Orpá e Rute; mas eles faleceram pouco depois. Quando Noemi, sua viúva, decidiu regressar a Belém, uma de suas noras, Rute, se ofereceu para acompanhá-la com umas palavras que são um testemunho inesquecível de fidelidade: “Para onde fores, eu irei; o teu povo é o meu povo, o teu Deus é o meu Deus” (Rt 1,16). Ante a firmeza de sua declaração, Noemi optou por aceitá-la em sua companhia, como se fosse sua própria filha. Quando ambas chegaram a Belém, Rute saiu a espigar atrás dos segadores, a fim de conseguir alimento para ela e a sua sogra, e Deus a abençoou por ter confiado nEle.

II- Rute se incorpora à casa de Israel (2, 18-4, 22) - A segunda parte gira em torno à “redenção” (geulá), um costume tradicional em Israel que obrigava a proteger aos familiares desamparados por qualquer causa. Enquanto Rute colhia espigas no campo conheceu a Booz, parente rico de seu falecido sogro Elimélec. Quando, regressando a casa, encontra Noemi, Rute busca a proteção de Booz, e este, admirado pelas virtudes que percebe na moabita, se apaixona por ela e decide assumir essa responsabilidade. Não obstante, como essa tarefa correspondia em primeiro lugar a outro parente, resolve primeiro as questões legais pertinentes. Finalmente, a toma por esposa e desde matrimônio nasce Obed, que seria o pai de Jessé e avô de Davi.

Composição

O livro de Rute não forma parte da “história deuteronomista”, pois tem características singulares. Composto provavelmente quando Judá era uma província do império persa (séculos VI-V a.C.), o livro deixa uma porta aberta à dimensão universal da salvação divina, precisamente quando se insistia aos israelitas em que não contraíssem matrimônio com mulheres estrangeiras para salvaguardar assim a identidade do povo. O livro de Rute mostra que também fora de Israel havia mulheres boas e fiéis a Deus, e que Deus contava com elas para fazer grandes coisas na história da salvação: da descendência de uma mulher moabita, Rute, haveria de nascer o rei Davi. 

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Os 2 livros dos Reis - Composição e Ensinamentos



Composição

A obra foi redigida na época do desterro ao menos como uma primeira redação da “história deuteronomista”, e era destinada aos judeus que viveram o desastre da invasão babilônica. Tem por finalidade explicar como puderam suceder aquelas coisas e animar à fidelidade ao Deus de Israel, o único verdadeiro.  O redator de 1 e 2 Reis se serviu de materiais prévios nos quais se apoia e aos quais respeita ao introduzi-los em sua obra.

Ensinamentos

Em seu conjunto 1 e 2 dos Reis mostram, como o livro do Deuteronômio, que o destino do homem depende de sua fidelidade a Deus. A experiência histórica de Israel havia sido que, depois de haver tido a posse da terra como dom de Deus, chegou a perdê-la ao ser invadido e levado ao desterro pelos povos estrangeiros. Este fato avivou a consciência de que o homem está chamado ao fracasso quando abandona o verdadeiro Deus e a sua Lei, submetendo-se ao serviço dos ídolos.

Em 1 e 2 Reis encontramos descrita a relação dos homens com Deus e de Deus com os homens, que se manifesta na história de Israel ao longo de uns quatrocentos anos. 1 e 2 Reis são, neste sentido, os livros do Antigo Testamento que, talvez com mais realismo do que nenhum outro - “manifestam a todos o conhecimento de Deus e do homem, e o modo com que Deus justo e misericordioso trata os homens (...) antes do tempo da salvação estabelecida por Cristo (Conc. Vaticano II, Dei Verbum, n. 15).   

Com efeito, 1 e 2 Reis põem ante os olhos o conhecimento de Deus que Israel adquiriu  ao longo da história, e como chegou a ele. Certamente, Deus se havia revelado aos patriarcas como amigo, acompanhante e protetor em suas peregrinações, e a Moisés e a Josué como o Deus que tirou o seu povo do Egito, estabeleceu com ele uma aliança e lhe deu uma lei e uma terra. Deus se havia revelado aos Juízes como salvador nas batalhas e administrador da justiça ante o povo, chegando a lhe conceder um rei que exercesse estas funções e fosse segundo o seu coração. Agora, me 1 e 2 Reis, Deus se revela misericordioso e fiel.  

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Os 2 Livros dos Reis - Estrutura e Síntese do Conteúdo



Os 2 Livros dos Reis constituem uma unidade: a quarta parte do conjunto integrado por Josué, Juízes, Samuel e Reis, que na Bíblia hebreia recebe o nome de “profetas anteriores”. A divisão do conteúdo de Reis em 2 Livros se encontra pela primeira vez nos códices da tradução grega da Bíblia, chamada “dos Setenta” , onde levam o título: “Terceiro e Quarto livro dos Reinos”, pois o primeiro e o segundo correspondiam a 1 e 2 Samuel. Foi São Jerônimo quem, seguindo a tradição hebreia, os chamou “Livro dos Reis”.

Estrutura e Síntese do Conteúdo

O primeiro livro dos Reis começa com uma ampla narração da figura e das obras de Salomão, sucessor de Davi. Depois, vai expondo a história dos Reinos que se formaram com a morte de Salomão: Israel no Norte e Judá no Sul. Apresenta aos reis de ambos os reinos de maneira sincrônica, relacionando as datas nas quais uns e outros começaram a reinar. No segundo livro dos Reis continua a história dos dois reinos, a partir dos tempos do profeta Eliseu, até chegar à desaparição do Reino do Norte e, depois, a deportação à Babilônia do rei de Judá e da povoação mais importante de Jerusalém.  O conteúdo dos Livros dos Reis se pode dividir da seguinte forma:

I-               O Rei Salomão sucessor de Davi (1 R 1, 1-11, 43). Primeiro se apresenta como foi a sucessão de Davi; segue se a narração da magnificência do reinado de Salomão, que se conclui com a exposição dos pontos obscuros de seu reinado e com a sua morte. O rasgo mais notável de Salomão é a sabedoria que Deus lhe outorga. e que se manifesta nas construções que realiza, sobretudo na edificação e dedicação do Templo.

II-     Reis de Israel e de Judá (1 R 12,1- 2R 17,40). Vão-se apresentando de forma sincrônica os reis de Israel e de Judá até os tempos do profeta Elias. Começa com a divisão produzida entre as tribos do norte e as do sul a partir da sucessão de Salomão: as tribos do sul se mantiveram fiéis a Roboão, filho de Salomão, enquanto as do norte nomearam Joroboão como rei. Em Judá, os reis acedem ao trono por via hereditária, mantendo-se assim a estirpe de Davi.

III-          Reis de Judá após o exílio da Babilônia 2 R 18, 1-25,30). Esta última parte dos livros dos Reis conta a história do reino de Judá após a queda do reino do Norte, até a tomada e saqueio de Jerusalém por Nabucodonosor. Em Judá ficou um governador e, na Babilônia, o rei Joaquim, ainda que sob cativeiro, obteve um trato de favor e de reconhecimento como rei por parte de Nabucodonosor. Acaba assim a história dos reis com um toque de esperança porque continua, mesmo no desterro, a estirpe de Davi.